Minissérie sobre gagueira: o que é gagueira?
O que é gagueira?
Introdução
A gagueira é uma diferença de fala de origem biológica, caracterizada por comportamentos primários e secundários.
Estamos falando aqui especificamente da gagueira do desenvolvimento, e não da gagueira adquirida; ela costuma surgir na infância e, em algumas pessoas, continua até a
vida adulta. Em inglês, a gagueira é chamada de “stuttering” ou “stammering”, e cada termo é usado em países diferentes.
Características primárias
As características primárias da gagueira são uma manifestação da sua origem biológica. Elas consistem em prolongamentos, nos quais o som é esticado (asssssim,
por exemplo); repetições, nas quais sílabas ou sons são repetidos (a-a-assim); e bloqueios, durante os quais, inicialmente, a pessoa não consegue emitir som nenhum. Estes últimos
às vezes são chamados de bloqueios silenciosos.
Características secundárias
As características secundárias da gagueira incluem comportamentos como:
· Tensão física em qualquer parte do corpo, e às vezes no corpo inteiro, como tensão na mandíbula, no pescoço e no abdômen.
· Inserção de palavras e sons de preenchimento, como “hum”, “éé”, “tipo” ou até “sabe”.
· Movimentos corporais involuntários, como inclinar a cabeça, dar trancos com a cabeça ou as mãos e comportamentos semelhantes a tiques. Eles resultam da tensão.
· Vários tipos de evitação, como substituir palavras, usar palavras de preenchimento para evitar chegar ao momento da gagueira, evitar a participação social ou simplesmente não falar.
Gagueira e luta
A chave para entender a gagueira é saber diferenciar a gagueira em si da luta contra a gagueira.
As características, ou comportamentos, secundárias são uma manifestação da luta com e contra a gagueira, e todas surgem das nossas tentativas de evitar e esconder a
gagueira. Todas essas tentativas de evitar a gagueira acontecem por causa do estigma associado a ela.
Na maioria dos casos, se não em todos, da chamada gagueira “grave”, a gravidade vem da luta com e contra a gagueira, e não da gagueira em si. Dito isso,
a luta nem sempre aumenta a gravidade da gagueira, mas aumenta o impacto da gagueira na forma como vivemos.
É muito importante entender a diferença entre os comportamentos primários e secundários, porque:
· É importante entender o que está acontecendo para que possamos lidar com isso da forma mais adequada para nós.
· Se identificarmos o problema de forma errada (supondo que haja um problema), vamos buscar e provavelmente receber o tratamento incorreto (supondo que seja necessário um tratamento), e o problema não será resolvido.
· É importante entender por que estamos sofrendo para conseguir resolver esse sofrimento de forma eficaz.
A base biológica da gagueira
As pesquisas mostram que a gagueira tem natureza biológica[1]. Gaguejamos porque temos uma diferença neurofisiológica que afeta o tempo e o início dos movimentos motores da fala.
· Existem diferenças neurológicas funcionais e estruturais entre o cérebro das pessoas que gaguejam (PQG) e o das que não gaguejam.
· A gagueira tem componentes genéticos. Isso não significa que ela seja necessariamente hereditária, embora existam famílias em que a gagueira é observada
ao longo de várias gerações.
· Há pesquisas sobre o papel da neuroquímica na gagueira, e foi encontrada uma relação entre a dopamina e a gagueira[2].
É muito importante ressaltar que essa diferença neurológica afeta apenas a fala, e não qualquer outra capacidade das pessoas que gaguejam.
Estatísticas
Cerca de 5% das crianças em idade pré-escolar passam por alguma fase de gagueira, que desaparece em cerca de 75% a 80% delas[3]. Ainda não sabemos por quê, mas a neuroplasticidade
possivelmente tem um papel nisso.
De modo geral, aceita-se que as PQG representam cerca de 1% da população adulta[4], embora dados do Reino Unido de cerca de 2021 indiquem aproximadamente 2%[5].
A proporção entre homens e mulheres que gaguejam é de aproximadamente 4:1, ou seja, 4 em cada 5 PQG são homens[6].
A gagueira ocorre em todos os países, em todos os idiomas e em todas as culturas[7].
Diferença, não defeito
É fundamental entender e reconhecer que a gagueira é uma Diferença de fala ou de comunicação, e não um Defeito[8]. Essa compreensão orienta a forma como
nos relacionamos com a gagueira e com a pessoa que gagueja.
· O problema não é a gagueira, mas sim a nossa atitude em relação a ela.
· O problema é o estigma social e o preconceito, pelos quais as PQG são julgadas e discriminadas.
O papel do ouvinte
Apenas escute. Escute o que a pessoa está dizendo e evite se concentrar em como ela está falando ou julgar isso.
Evite dar conselhos, como “fale mais devagar” ou “respire”. Esses conselhos, embora bem-intencionados, não ajudam em nada e chegam até a atrapalhar.
Evite completar as palavras e frases da PQG. Deixe a pessoa falar e escute, não importa quanto tempo ela leve.
Se você não entender algo que a pessoa disse, peça um esclarecimento.
Alguns mitos comuns sobre a gagueira
· A gagueira não é causada por problemas emocionais ou psicológicos e não é uma doença mental.
· A gagueira não tem relação com a inteligência.
· A gagueira não se deve à falta de autoconfiança ou de autoestima.
· A gagueira não é causada pelo estresse.
- Mas a pressão do tempo e o estresse podem intensificar a gagueira.
· A gagueira não é causada por um trauma vivido na infância.
- Embora o trauma possa ser um dos gatilhos em quem tem uma tendência fisiológica à gagueira.
· A gagueira não define a pessoa; é simplesmente parte dela.
Referências
[1] Knowns and unknowns about the neurobiology of stuttering; https://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.3002492
[2] The Stuttering Mind; Scientific American, August 2021; https://www.scientificamerican.com/article/stuttering-stems-from-problems-in-brain-wiring-not-personalities/
[3] A Handbook on Stuttering; Bloodstein, Bernstein Ratner and Brundage; Seventh Edition; Summary Remarks on the Demography of Stuttering
[4] A Handbook on Stuttering; Bloodstein, Bernstein Ratner and Brundage; Seventh Edition; Summary Remarks on the Demography of Stuttering
[5] Stamma.org; https://stamma.org/features/how-many-adults-stammer
[6] A Handbook on Stuttering; Bloodstein, Bernstein Ratner and Brundage; Seventh Edition; The Sex Ratio
[7] A Handbook on Stuttering; Bloodstein, Bernstein Ratner and Brundage; Seventh Edition; Stuttering in Other World Communities
[8] Stammering Pride and Prejudice: Difference not Defect; https://www.jr-press.co.uk/product/stammering-pride-prejudice/
O autor
Hanan Hurwitz é uma pessoa que gagueja e se orgulha disso, e foi presidente e diretor executivo da AMBI, a Associação Israelense de Gagueira. Ele dá muitas palestras sobre gagueira e está determinado a ajudar todos a entender a gagueira, para superar as limitações que o estigma generalizado impõe à sociedade em geral e, em especial, às pessoas que gaguejam e às suas famílias. Teve um papel fundamental na organização de conferências sobre gagueira e fez parte da equipe que organiza a conferência on-line anual do Dia Internacional de Conscientização sobre a Gagueira.
Hanan é autor do livro “Stuttering: From Shame and Anxiety to Confident Authenticity”. Informações sobre o livro e o download gratuito de um capítulo estão disponíveis em OnStuttering.com.
Profissionalmente, Hanan é engenheiro eletrônico por formação. Desde 2019, atua como consultor independente de Gestão da Qualidade e Assuntos Regulatórios.
Seus principais interesses são o estudo das filosofias budista e estoica, a guitarra blues, a leitura e, é claro, a gagueira.
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